Crônicas de Nova Ipanema
Solidão, a dor que nem todos sentem.
João Carlos Lopes dos Santos
Crônica criada em 02/02/2023
Meus vizinhos, quando me encontram na rua, me confundem com um holograma. Alguns se compadecem por eu ficar quase sempre dentro de casa. Já me perguntaram se o tempo não custa a passar, quando se prefere o isolamento. Ledo engano! Meus dias, meses e anos voam! É que gosto muito de trabalhar, escrever e de buscar conhecimento. Assim, vou me divertindo. Para mim, o ócio é uma punição. O fundamental encontro dentro na minha morada. Vivo num puxadinho do paraíso, onde até ficar dentro de casa será um excelente programa. Há décadas, optei por trabalhar no meu escritório doméstico, respeitando um antigo axioma lusitano: Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz.
De repente, me vem à memória Versos Íntimos do paraibano Augusto dos Anjos, a me recordar a solidão que lhe doía. Com certeza, eu não assinaria esse poema, até porque cada indivíduo sabe da dor que padece. Sem dúvida, trata-se da obra mais festejada do poeta, mesmo ante a dor que nela ele nos reporta, em face da insidiosa e dolorosa doença que lhe ceifou a vida aos trinta anos de idade, além de problemas com seus relacionamentos interpessoais. O poema consta do seu único livro ‘Eu e Outras Poesias’, editado em 1912.
Ue o Muite Arukou
Mudando o que deve ser mudado, poder-se-á dizer o mesmo do letrista Rokusuke Ei e do pianista Hachidai Nakamura, quando em 1961 compuseram a canção Ue o Muite Arukou, o que pode ser traduzido por caminho olhando para cima. Começa aí a história de um estrondoso sucesso, cristalizado em um dos discos simples mais vendidos de sempre em todo o planeta, na voz do carismático Kyu Sakamoto. A letra original também versa sobre a solidão. Trata-se aqui da obra literomusical japonesa mais interpretada, vertida e regravada internacionalmente, que ficou conhecida mundo afora com o título Sukiyaki.
Na sua origem, sukiyaki é uma iguaria japonesa, equivalente ao prato luso-brasileiro ensopado. Portanto, trata-se de um título incompossível com a letra original de Ue o Muite Arukou. Poderia ter sido sushi, sashimi, robata, yakisoba, dorayaki, mas foi Sukiyaki o título escolhido pelo produtor inglês que divulgou internacionalmente essa obra-prima. Reza a memória popular que, por gostar da iguaria japonesa e da sonoridade da palavra, rebatizou a canção, objetivando que ela fosse aceita mais facilmente pelo público ocidental. E o mundo todo gostou! Em meados dos anos 1960, essa canção galgou os primeiros lugares das paradas de sucessos mundiais.
Por todo planeta, essa icônica canção recebeu inimaginável número de versões. Como se sabe, as versões não têm compromisso com as letras originais. São adaptações de um idioma para outro, podendo até apresentar contextos bem diferentes. No Brasil, em 1963, uma delas foi gravada pelo Trio Esperança com o título Olhando Para o Céu, tendo como mote a solidão romântica, quiçá, fúnebre. A letra vertida é do compositor Romeo Nunes, que nos legou extensa obra literomusical. Reporto aqui a minha surpresa, mormente aos meus vizinhos nova-ipanemenses, visto que, por não ser de bom-tom imiscuir-se na vida alheia, só neste exato momento tomei conhecimento da verve poético-musical do nosso saudoso vizinho Romeo Nunes. É que, ali pelas décadas de 1980/90, Romeo Brayner Nunes dos Santos (? – 1996) e sua mulher, a artista têxtil Concessa Colaço Brayner Nunes (1928-2005) – renomada pela excelência de seus tapetes – foram nossos vizinhos no Condomínio Nova Ipanema, no bairro carioca da Barra da Tijuca. Fecho os olhos e me volta à retina a imagem do peladeiro Romeo Nunes, literalmente perseguindo uma bola no nosso campo de futebol.
Solidão ou solitude?
Os mais próximos sabem que só expresso o que me vai no coração. Tomei gosto por estar só. Foi o agradável fruto colhido no isolamento social da pandemia Covid-19, flagelo que não alcançou, graças a Deus, a quaisquer dos meus familiares. Portanto, ficar em casa não me causa nenhum incômodo. Ao contrário, só me traz benefícios, entre eles, aguça a minha criatividade. Vou à rua, com absoluto prazer, quando necessário. Então, no meu caso, não se trata de solidão, que gera tristeza e dor, mas sim de solitude, que se define pelo estado de espírito de quem gosta de estar na sua própria companhia.
Só quem viveu pouco e/ou sem intensidade não gosta estar só. Dentro da minha cabeça, caro leitor, funciona um colossal e densamente povoado parque de diversões. Observe como os jovens gostam de andar em bandos. Quem viveu muito, tendo experimentado fortes emoções, decerto concordará com essa tese. E nada contra a juventude, genialmente definida pela dupla Flávio Venturini/Márcio Borges, na canção Linda Juventude, como sendo uma página de um livro bom. Muito menos contra os idosos que, quando conscientes do próprio potencial, contraditam aqueles que, em vão, tentam convencê-los de que a longa vivência não os transformou em sábios. No entanto, os longevos enfrentam alguns reveses, sendo o mais grave deles as partidas progressivas de pessoas queridas que, com o passar do tempo, vão virando estrelinhas.
Mas eu vivo viajando...
Às vezes, pela manhã, após os afazeres profissionais, por exemplo, posso passear pelas sete regiões de Portugal. E lá vou eu dos Açores, passando pela Madeira, até a bela Portimão, no Algarve. Depois de conhecer o aprazível Alentejo, sigo até o Terreiro do Paço, junto ao Tejo que, após banhar a região de Lisboa, se joga nos braços do Atlântico. Depois de me emocionar no Santuário de Fátima e de me encantar com o Centro, prossigo até o Norte, para umedecer meus olhos no Douro, depois de ele ter dado de beber às belas paisagens transmontanas. À tarde, de volta ao Rio de Janeiro, posso estar no Alto da Boa Vista a conduzir o saudoso Packard 1949, a minha paixão automotiva e de meu pai. À noitinha, posso estar no Japão, só para assistir às talentosas japonesinhas da Kyoto Tachibana Senior High School Band. Agora, me dou conta, rindo muito, se esta crônica necessitar de se um fundo musical, só pode ser esse: clique sobre ‘Voyage, voyage’.
Conheço o mundo como a palma das minhas mãos, mas quase nada com a sola dos meus pés. Já bisbilhotei o Titanic no fundo do mar. Até à lua, eu já fui... Ah! E para que não me tomem por louco, jamais botei meus pés fora do Brasil. É que as plataformas de compartilhamento de vídeos são enriquecedoras fontes de conhecimento. Lá, temos como pesquisar a respeito de tudo, nos aprimorar profissionalmente, assim como assistir a muito entretenimento. Todavia, será indispensável acuidade e discernimento, no que concerne aos clickbaits (iscas de clique ou caça-cliques) e à veracidade das matérias, lá veiculadas. Ao navegarmos nessas plataformas, a cautela deverá ser a mesma que tomamos para todos os tipos de informação que recebemos, independentemente de suas fontes.
Post scriptum – Aprofundamento, no que respeita ao que foi ventilado nesta crônica.
1. Para saber mais a respeito do poeta paraibano Augusto dos Anjos, basta clicar por sobre https://pt.wikipedia.org/wiki/Augusto_dos_Anjos. Em https://www.culturagenial.com/poema-versos-intimos-de-augusto-dos-anjos/, há uma indefectível análise de Versos Íntimos, incluindo a sua transcrição.
2. Ouça a canção Ue o Muite Arukou, lendo a tradução da letra original para a língua portuguesa, acessando o link https://www.youtube.com/watch?v=THe0lPJP4RE. Aprenda a preparar a iguaria japonesa sukiyaki, clicando em https://www.youtube.com/watch?v=z0cOE8tyUEU.
3. Para tomar conhecimento da letra da versão Olhando Para o Céu, da lavra do meu saudoso vizinho Romeo Nunes, gravada em 1963 pelo Trio Esperança, acesse https://www.letras.mus.br/trio-esperanca/683083/. Clique sobre https://discografiabrasileira.com.br/artista/97227/romeu-nunes, para ouvir todas as canções, cujas letras foram compostas por Romeo Nunes. Para se deleitar com a imagem de uma das obras da artista têxtil Concessa Colaço, acesse https://gulbenkian.pt/cam/works_cam/amazonas-em-tempo-branco-144518/.
4. Você já viu um Packard Deluxe Eight Touring Sedan? Por fora, tem a estrutura de um tanque de guerra, mas por dentro nada mais é do que um aconchegante berço. Aos 18 anos, com meu pai, aprendi a conduzi-lo. Nele, fiz o exame para obter a minha habilitação. Encontrei um vídeo que mostra, com riqueza de informações, um idêntico ao nosso: saia e blusa, creme e caramelo, só que do ano 1948. Os modelos 1948, 1949 e 1950 são visualmente iguais, mudando poucos detalhes. O nosso, modelo 1949, originalmente pintado de verde garrafa – meu pai, por não gostar da cor, logo que o comprou, optou pela sobredita combinação de cores –, não tinha no capô o adorno alado, que se vê no 1948, mas outra imagem de Nice, a deusa grega que personifica a vitória, a força e a velocidade, bem mais harmoniosa ao conjunto. Confesso a minha emoção ao encontrar o link https://www.youtube.com/watch?v=nVvxk52Ys8s.
5. E as meninas – e pouquíssimos meninos – da Kyoto Tachibana Senior High School Band? Para vê-las passar pelas ruas da cidade de Kyoto, lá no ano de 2017, clique sobre https://www.youtube.com/watch?v=ZVJ3Ho83Ksg. Se você for brasileiro, mormente baiano, com certeza, vai se emocionar aos 10 minutos de duração desse vídeo. Trata-se aqui de uma banda musical escolar, criada em 1961, cujos participantes sempre são substituídos no final dos seus cursos. Acesse https://kyototachibanashsbandunofficialfanblog.wordpress.com/background-information-band/, encontrando lá a possibilidade de ter o teor, em japonês, traduzido para a língua portuguesa.
6. Para saber mais sobre a letra de ‘Voyage, voyage’: https://www.youtube.com/watch?v=eM2os6RYpHs.
Observação – Tenho como provar de que criei essa crônica, em 02/02/2023. Como é normal, com o passar do tempo, ela foi sendo burilada, sem perder o contexto inicial. Dois anos e quatro meses depois, me deparei com essa matéria jornalística da BBC News Brasil: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy8d3xd4lwgo.
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